BIOFILIA: O instinto humano de pertencer à natureza
- ELAI BRASIL

- 1 de jan.
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Atualizado: 7 de jan.
Uma árvore sabe que não vive na Terra. Ela sabe que não existe espaço entre ela, e tudo.
A natureza é relativa ao observador. Somos muitos e juntos somos um, paradoxalmente singular e universal.
Um grande ser vivo fragmentado, reagindo em complexa ordem no instinto de pulsar a informação do ser, para que juntos possamos estar. Existir na conspiração da vida, é só para o mais bem adaptado. Como indivíduos ou animais, se não somos, não pertencemos, e talvez nem existimos.
A biofilia é a nossa orientação biológica de conexão com a natureza. Palavra com raízes que viajam por eras e evoluções, tecida em nosso código genético desde a primeira formação de vida. Como filhos, carregamos uma origem influente. Uma relação primitiva não apenas por reconhecê-la como fonte de alimento, abrigo e recursos essenciais, mas de profundo instinto de sobrevivência por ela ser o próprio mecanismo de seleção natural. Ao longo da nossa história, somente os que melhor se adaptaram à natureza garantiram maior probabilidade de sobreviver e transmitir seus genes, contribuindo para a codificação da biofilia no DNA humano como parte do mesmo impulso adaptativo que molda todas as formas de vida aqui na Terra.
Mutações genéticas marcam eternamente a linha temporal do DNA, isso significa que naturalmente sabemos o caminho de volta para casa. Não na forma de retrocesso como espécie, mas como um avanço ainda maior.
A evolução é uma constante inevitável, e a tecnologia por sua vez, um produto da evolução humana. Como qualquer outro animal, desenvolvemos adaptações físicas e comportamentais para melhor nos adaptarmos a um ambiente em constante mudança. A diferença é negamos a mudança, e o ambiente.
Todo desenvolvimento cognitivo expandiu junto a nossa capacidade de raciocínio lógico na busca pelo prático, e esse rápido avanço, resultou em uma desconexão crescente com o básico primordial. A natureza passou a ser um recurso a ser conquistado, explorado e transformado para atender as necessidades crescentes da sociedade “moderna”. Longe de sermos relevantes, mas, conectados a tudo e todos, desequilibramos o eixo em uma escala de décadas. Ao pertencer, um atalho dentro de uma rede organizada muda o curso direto de todos os envolvidos.
No topo da cadeia alimentar, a batalha pela sobrevivência humana passou a ser emplacada por recursos, poder e influência entre indivíduos-grupos-nações de mesma espécie. Nessa narrativa de posse, surgiram dinâmicas inéditas de comportamentos predatórios sustentados pela grande ilusão de separação. Enquanto o essencial é usado para ataque, nos separam da nossa natureza humana esgotando recursos que nos sustentam vivos.
Além de conflitos generalizados, a destrutível ilusão humana de ser invencível nos aliena de um sistema que se equilibra extinguindo espécies. A natureza possui mecanismos de autocorreção por puro instinto de perpetuar a vida. Na teoria da seleção natural, garantir a sobrevivência e preservação de uma linhagem está diretamente ligada à harmonia em que o todo é impactado. Sem esforço, o desequilíbrio se desvia para fora da rota até sair completamente do caminho.
Para toda força (ação), existe uma força de igual intensidade seguindo em direção oposta (reação). A diferença da lei da vida para a lei de Newton é que na natureza, elas podem se anular. Assim como o microplástico hoje impacta a reprodução da espécie que o produziu, condições climáticas, doenças e a pobreza também poderão contar a mesma história. Nos transformamos em presa, e a seleção natural, o nosso predador.
Hierarquia refere-se a uma classificação de entidades. A natureza não ocupa o topo porque ela é o sistema inteiro. A visão antropocêntrica da espécie humana em se medir diante de uma consciência de 4,5 bilhões de anos nos move cada vez mais próximo do nosso estúpido fim. Nem mesmo somos capazes de destruir tudo, mas somos de fato, a única espécie responsável por estar à beira de sua própria extinção, e a mesma com capacidade de sair.
Sustentar antigos hábitos já não é mais uma questão de escolha, e por mais desafiador que pareça as novas demandas dessa geração, a adaptação humana está em conformidade com seus princípios históricos de evolução, cravadas como herança genética. Como seres que anseiam a natureza essencialmente, reconhecer o grande ser vivo em que habitamos é o primeiro passo para então validarmos o que ele oferece. Essa grande consciência em constante processo de equilíbrio não desperdiça energia, portanto, entender que nada na natureza é descartado, é entender que ela é a própria solução.
A Terra é um organismo de muitos organismos, e a inteligência natural de cada ser vivo, carrega uma história com propósito e direções a seguir para preencher um respectivo lugar. Somos fragmentos da Terra que se encaixam perfeitamente juntos desde que assumindo nossa verdadeira forma. Se não manifestamos a nossa natureza, não existimos e não pertencemos a nada além de uma ideia em um corpo que preenche um espaço. Obedecer à(s) nossa(s) natureza(s) é o nosso único servir como pertencentes.
Consideramos a consciência o “livre arbítrio” enquanto que aparentemente existe apenas o caminho do coração. Uma abelha passar a vida polinizando flores não significa que ela não reconheça todas as suas possibilidades, mas que talvez ela esteja tão consciente que sabe que sua melhor escolha, é ser uma abelha. E por ser sua natureza, tudo o que ela quer fazer genuinamente, é polinizar flores.
Honramos nossa origem quando expandimos nossas raízes junto à consciência. O elo da natureza de quem somos com o que somos amplia o nosso potencial de ser e viver uma experiência mais autêntica e alinhada com a verdade. Somos partes integrantes de um sistema interdependente, fragmentado em diversidade de ideias, percepções, habilidades e virtudes. Pertencer é entender que cada um de nós carrega um potencial infinito dentro de si e que juntos, assumindo aspectos da nossa identidade, nos transformamos na melhor versão de nós mesmos para uma melhor versão do todo.
É inédito existir como espécie humana, estamos ainda em processo de adequação. Esse reencontro com a Terra é a parte mais importante do nosso avanço evolutivo. Enquanto algumas espécies existem há milhões de anos, nós participamos de apenas 1/1000 desse tempo, o suficiente para identificarmos nosso potencial e como desperdiçá-lo.
A humanidade engatinha para a recuperação de sua identidade, e vai perceber que a tecnologia é a própria expressão da natureza evoluindo como espécie humana. A natureza criou a tecnologia, e o ser humano com a tecnologia, transformou a natureza em papel.
Quando finalmente irão perceber que dinheiro não é de comer?
Somos matéria orgânica com o superpoder de materializar ideias. Somos a própria expressão da Terra evoluindo como Terra. Somos a espécie que imagina, traduzimos o invisível em símbolos, inventamos linguagem, números, significados, crescemos rápido e confundimos valor com preço. Quando a narrativa vale mais que a realidade, tudo é monetizado, inclusive a própria realidade.
Nossa origem não está atrás, está dentro, e os impactos dessa inversão refletem a condição humana de não saber existir e muito menos coexistir com outras formas de vida que permeiam esse ecossistema equilibrado. Humildemente, precisamos assumir o nosso erro e o nosso lugar, redirecionar nosso potencial para restaurar vínculos e experienciar o verdadeiro significado de humanidade. O equilíbrio depende do elo e a união, aqui, realmente faz a força.
Uma árvore sabe que não vive na Terra, ela é a própria terra que a brotou.
Nota ao leitor
Nos convencem que utopia é uma sociedade imaginária enquanto validam uma sociedade que imagina ser a espécie mais inteligente. Viramos escassez em plena abundância chamando exploração de progresso, exaustão de meta, "realista" o que dói e "utópico" o que pulsa, mas o sistema que atua há bilhões de muitos anos, metaboliza a utopia para virar equilíbrio.
A utopia humana é uma idéia, a utopia da Terra é condição.


















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